quinta-feira, 26 de abril de 2012

PARCERIA AEE E SALA COMUM

PARCERIA ENTRE OS PROFESSORES DA SALA COMUM E O AEE NA UTILIZAÇÃO DOS RECURSOS

1          Plano de aula
Há uma diferença entre a atuação do professor da sala comum e a do professor do AEE. Enquanto o primeiro ocupa-se do ensino dos conhecimentos acadêmicos, o segundo identifica as possíveis barreiras impostas pela deficiência e pelo meio e disponibiliza recursos e estratégias para que este aluno consiga participar, por meio da ampliação de sua comunicação e intervenção no meio, dos vários desafios à aprendizagem na escola.
Os trabalhos desses professores são complementares e exigem deles uma estreita parceria .
Apresentamos, como exemplo, o caso de Joana e sua turma.
Joana é aluna da segunda série, possui paralisia cerebral, emite sons, sinaliza o SIM com um sorriso e o NÃO baixando a cabeça. Apresenta dificuldades motoras que limitam a sua produção gráfica. Consegue apontar e segurar objetos grandes e leves com sua mão direita.
Joana é muito interessada por tudo o que se passa ao seu redor: segue com o olhar atento e se manifesta com expressões faciais e corporais, criadas por ela mesma, para dizer que está feliz, insatisfeita com algo, quando deseja alguma coisa que está enxergando, quando precisa ir ao banheiro ou quando deseja beber, comer, brincar ou sair. Usa cadeira de rodas com apoios especiais e necessita ajuda para mover-se.
O plano de aula apresentado pela professora da classe comum orientou a professora do AEE a construir e propor estratégias e recursos de tecnologia assistiva que tiveram por objetivo ampliar a participação de Joana em todas as atividades pensadas para a turma e consequentemente oportunizar vivências ricas para construção de conhecimentos, junto com seus colegas de classe.
O plano de aula da professora da classe comum para seus alunos de 2ª. ano do ensino elementar era o seguinte:
Conteúdo:       Leitura e interpretação
Redação de pequenos textos
Objetivos:        Ler  pequenos textos.
Oportunizar a interpretação dos textos lido, por meio de  diferentes linguagens: fala, desenho, dramatizações, recorte e colagem.
Redigir uma pequena história a partir de cantigas de roda.
 Atividades:     Dramatização em grupo de historias lidas pelos colegas.
Montagem de um painel com recorte e colagem dos personagens das histórias ouvidas.
Criação e redação de pequenas histórias, em grupo, após a participação nas cantigas de roda.
Montagem de um livro com as histórias criadas pelos grupos.
Exposição dos livros pelos seus autores.
Recursos:        Papéis diversos, livros de histórias e revistas
Cola, tesoura
CDs com cantigas de roda e aparelho de som
Cadernos, lápis, canetas coloridas
Mesas e painéis para a exposição
Computador e impressora
Avaliação:       Cooperativa realizada pelos alunos através da análise da produção dos grupos
Auto avaliação


2 Plano de AEE e propostas de intervenção em Tecnologia Assistiva em cada atividade
A professora do AEE, com o objetivo de apoiar o seu aluno nas atividades do plano de trabalho da classe comum, planejou sua intervenção por meio da  Tecnologia Assistiva, visando a participação desse aluno  em cada uma delas:
Para a atividade de dramatização em grupo de historias lidas pelos colegas.
·         Joana escolheu seu papel na dramatização, apontando para cartões de comunicação, com a foto escaneada dos personagens.
·         Pode participar da escrita do roteiro, por intermédio da prancha temática sobre a história ou da prancha de palavras pré-escritas, com vocabulário pertinente ao planejamento da professora da classe comum.


Foto 1. Prancha de comunicação confeccionada com tema específico de uma história ela apresenta símbolos com a descrição dos personagens e suas características.
·         A professora de AEE alertou a turma a sempre confirmar com Joana se ela concorda ou não com o que está sendo construído em grupo através de perguntas com respostas SIM e NÃO.
·         Para as falas do teatro, Joana utilizou um vocalizador com várias mensagens pré-gravadas por uma colega, que forma acionadas por ela, no momento correto, durante a dramatização. No caso de não existir um vocalizador durante a dramatização, as falas podem ser expressas através de pequenos cartazes que são segurados e levantados por Joana no momento adequado, e lido por um colega.
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Foto 2. Vocalizador com oito áreas de mensagens gravadas. Cada botão contem uma fala, que é ativada pelo aluno durante o desenrolar da peça de teatro.

Para a montagem de um painel com recorte e colagem dos personagens das historias ouvidas, a professora do AEE preparou a turma da classe comum de Joana para:
·         Trabalhar em grupo.
·         Enquanto um colega virava as páginas do livro ou revista, Joana olhava e sinalizava apontando o que desejava recortar e colar no cartaz.
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Uma tesoura adaptada foi utilizada na atividade de recorte.

Foto 3.  Tesoura comum que é modificada através da colocação de um arame revestido de borracha no local onde são colocados os dedo, fazendo com que ela permaneça aberta, e facilite o movimento de recorte para  alunos com problemas motores nas mãos. Fotos 89 e 90. Tesoura é fixada em um suporte de madeira. O aluno bate com sua mão fechada no arco e consegue realizar o recorte.
·         Uma colega passou a cola na figura e Joana ajudou a espalhar.
·         Os colegas escolheram juntos o lugar no cartaz onde as figuras seriam coladas e Joana confirmava com o sinal de SIM ou NÃO.
·         Para desenhar e pintar, foram utilizadas canetas e lápis engrossados e a rolo de espuma para pintura.











Foto 4. Engrossadores feitos de espuma de isolamento térmico são colocados em lápis, pincel e em uma trincha de espuma para pintura. Foto 92. Aluno utilizando um dos engrossadores para colorir um desenho.

Para que Joana participasse das cantigas de roda, a professora de AEE acertou com a turma da classe comum e sua professora que
·         Joana poderia acompanhar a música com expressões corporais e sons emitidos por ela.
·         Um vocalizador de mensagens sequenciais  teria a cantiga de roda gravada e Joana acionaria esta canção, participando com o grupo.
O  vocalizador pode ter até oito mensagens gravadas em sequência e a cada toque no botão, as mensagens são ouvidas, uma a uma. Este recurso é bastante utilizado para músicas, leitura de um livro (página a página ), sequência de versos, falas durante uma peça de teatro etc.

Foto 5.  Vocalizador com suporte preto com botão vermelho grande que possui várias mensagens gravadas em sequência.
Para a criação e redação de pequenas histórias, em grupo, após a participação nas cantigas de roda, a professora de AEE sugeriu que:
·         A redação fosse feita por meio da escolha de símbolos previamente preparados, cartões de palavras pré-escritas, alfabeto móvel ou prancha de letras.
·         A produção de texto coletivo contasse com as contribuições de Joana, que concordaria  ou discordaria (utilizando respostas SIM e NÃO) e apontaria para as letras ou cartões de comunicação, enquanto um colega faz o registro escrito.




Foto 6. Letras em madeira e com base em imã, colocadas em um quadro imantado para a produção escrita. Foto 95. Prancha (folha impressa de letras e números) que são apontados pelo aluno. Foto 96. Texto construído através da colagem de vários cartões de símbolos gráficos e palavras.

Para a montagem de um livro com as histórias criadas pelos grupos, a professora de AEE recomendou utilizar as mesmas estratégias da produção textual coletiva e da montagem coletiva do painel.
Foto 7. Quatro livros produzidos pelos alunos utilizando-se colagem de  figuras, desenhos e escrita com cartões de comunicação.
Para a exposição dos livros pelos seus autores, a professora do AEE deu as seguintes orientações:
·         Joana participaria da exposição com pranchas temáticas com as quais pudesse  contar como foi a produção coletiva dos livros, manifestar suas predileções, fazer perguntas para os visitantes e outras.
·         Um vocalizador com prancha temática também foi  utilizada neste evento, atribuindo voz a Joana nas mensagens mais significativas que foram escolhidas por ela.

3          A avaliação na sala comum
A professora da sala de aula avaliará a produção e o envolvimento de Joana em todas as fases do processo, observando e buscando compreendê-la através do uso que a aluna faz de  seus recursos pessoais de comunicação; dirigindo-se sempre a ela com perguntas objetivas de respostas SIM e NÃO; por meio de pranchas temáticas sobre o assunto trabalhado, complementadas por prancha de letras e/ou alfabeto móvel e solicitando que Joana tente escrever o que gostaria de falar e que não está em sua prancha.
Na auto-avaliação, Joana pode ser questionada sobre seu aproveitamento em cada etapa das atividades apontando, em cartões ou prancha temática, o que aprendeu e se achou interessante ou não seu trabalho.

4          A avaliação no AEE
A professora do AEE avalia o quanto Joana conseguiu utilizar os recursos e estratégias de comunicação nas atividades propostas para sua turma da classe comum; o quanto precisa ser ainda estimulada a tomar iniciativa de comunicar-se, responder, argumentar, repetir (quando não é entendida), explorar recursos que não estão em sua prancha, conseguir resolver problemas para comunicar-se e indicar novos símbolos necessários ao seu recurso de comunicação etc.
A professora do AEE avaliará se o recurso colaborou ou não para que Joana alcançasse os objetivos propostos pela professora da classe comum e o quanto seus colegas e a professora da sala aprenderam a utilizar a tecnologia disponibilizada para incluir Joana nas atividades. Esta avaliação propicia à professora do AEE ajustar seu plano, revendo seus objetivos e atividades.
 O AEE tem um papel fundamental na inclusão de Joana na sala de aula comum.  O professor de AEE, ao conhecer o plano de aula, os objetivos e atividades propostas pelo professor da classe comum e ao propor com ele um conjunto de estratégias ampliou a participação de Joana na escola. A professora do AEE confeccionou o material de CAA e outros recursos de acessibilidade, disponibilizou-os para que Joana vivenciasse experiências de aprendizagem com a turma em plena participação. Orientou  o professor e a turma sobre como explorar os recursos  com Joana. Esse trabalho coordenado com a professora da sala comum é uma das atribuições do professor de AEE, ao desenvolver esse atendimento.


Texto extraído do livro: RECURSOS PEDAGÓGICOS ACESSÍVEIS E COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA.
Autores: Rita Bersch e Mara Lúcia Sartoretto
Brasília, MEC. 2010

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